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Design e Sociologia

Apontamentos para uma Antropologia do Design. [Resenha]

ANASTASSAKIS, Zoy. Apontamentos para uma Antropologia do Design. In:REUNIÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 26., 2008, Porto Seguro, BA. Anais 26.ª RBA. Porto Seguro: Centro de Convenções e CEFET. Disponível em: http://www.abant.org.br/conteudo/ANAIS/CD_Virtual_26_RBA/grupos_de_trabalho/trabalhos/GT%2037/zoy%20anastassakis.pdf. Acesso em: 8 mai. 2013.

 

“Apontamentos para uma Antropologia do Design” pode ser entendido como a ponte entre as disciplinas de Antropologia e Design. Neste trabalho, a autora, à época doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ, aponta para uma possível análise da disciplina e do trabalho de design sob uma análise antropológica, em que tenta elucidar as práticas e pensamentos do design no Brasil.

Partindo de sua dissertação sobre Centro Nacional de Referência Cultural, fundado por Aloísio Magalhães – um dos pioneiros do design brasileiro -, Anastassakis levanta questionamentos acerca do papel do designer, à partir da visão de Magalhães – cuja compreensão partia da premissa de que o design (aqui entendido como projeto)  deveria contribuir para o desenvolvimento econômico e cultural do país -, como: que relação estes profissionais estabelecem com os objetos – que estes mesmos profissionais projetam e consomem –  e a sociedade em que estão inseridos? Qual o seu papel na sociedade de consumo?

Assim estabelecidos os questionamentos para o que a autora compreende como Antropologia do Design, ela secciona o texto em três tópicos claros: o primeiro consiste de base puramente antropológica, em que Anastassakis articula conceitos advindos do trabalho em Antropologia da Arte, de Alfred Gell; o seguinte trata do estabelecimento do conceito de design; e a partir destas secções, a autora relaciona os trabalhos em Antropologia do Consumo, de Denis Miller, com os conceitos de Gell.

 

Zoy Anastassakis inicia sua articulação teórica baseada no trabalho “Art and Agency” de Alfred GELL, em que o referido autor afirma que objetos e obras de artes podem ser estudadas antropologicamente, uma vez que elas estabelecem relações sociais. Desta maneira, ele desenvolve três conceitos-chave, a saber: “agência”, “intencionalidade” e “pessoa distribuída”. Estas noções partem da relação que Guell estabelece dos objetos de consumo ou obras de arte com os objetos utilizados em rituais de magia, mais precisamente magia por idolatria.

O autor afirma em seu trabalho, segundo ANASTASSAKIS, que os objetos são produzidos com uma intencionalidade por um indivíduo, e que então, são dotados de uma ‘agência passiva’”, passando a influenciar pessoas e objetos ao seu redor de maneira invisível mas efetiva. E que esta agência fica se torna mais palpável na magia por idolatria, em que objeto representa um indivíduo, e assim “torna-se” uma pessoa – produzido por um indivíduo entendido no texto como o “feiticeiro”. Então, este artefato (GUELL não parece distinguir a definição de artefato e objeto), ou pedaços deste, que remete à alguém – e aqui, com os pedaços da imagem representativa, o autor insere o conceito de “pessoa distribuída”, uma vez que o pedaço da imagem se relaciona à um pedaço físico do alvo-, passa a exercer uma agência ativa através da intenção de alguém, restando à vítima da magia a agência passiva, exercendo uma relação influência sobre esta.

Estas noções nortearão o restante do trabalho, uma vez que na seção seguinte a autora compara o designer ao “feiticeiro”. Para compreender esta afirmação, Zoy Anastassakis entende o projeto – conceito essencial, mas não por isso a função última do design – como uma “metáfora”, em que o fim último “implica em planejar e definir com orientação ao futuro” (LEITE, João de S. Apud ANASTASSAKIS, Z. 2008). Para tanto, ao designer cabe informar-se sobre as implicações do parque fabril para gerar alternativas, a fim de hierarquizar de melhor maneira as necessidades primeiras ao que o objeto se prestará. Portanto, o profissional de design projeta produtos como intencionalidade e agência, tal como os feiticeiros já citados.

Daniel Miller é então citado a fim de compreender o consumo gerado pelos objetos produzidos pelos designer. Os escritos de MILLER voltam a análise para as relações sociais através do consumo, afirmando que artefatos “são objetificações que tendem a se prestar a certos tipos de apropriação cultural. Eles objetificam processos culturais”(MILLER, Daniel. Apud ANASTASSAKIS, Z.2008). O autor afirma que os objetos são “reobjetificados” à partir das referências e necessidades simbólicas de seus detentores, sendo então um processo de reconstrução indivual e de construção cultural.
MILLER cita MAUSS em “Ensaio sobre a Dádiva”, em que o último afirma ser impossível dissociar indivíduo de objeto, uma vez que o segundo leva um pouco da alma do primeiro – ou seja, o artefato incorpora relações sociais de dar, receber e retribuir. Desta maneira, a produção de artefatos está carregado de intencionalidade, pois são frutos de uma necessidade humana que visam sanar, e servem como pontes na sociedade em que estão inseridos. E assim, Miller afirma ser possível e necessário analisar as sociedades a partir do consumo de artefatos.

Sua afirmação ecoa no trabalho de José Reginaldo Gonçalves, citado por Anastassakis (2008), que insiste que se deve estudar a circulação, qualitativa e quantitavimente, dos artefatos na sociedade a fim de entender a dinâmica cultural e social, seus contextos e conflitos, e a consequente influência na subjetividade coletiva e individual.

A autora, após concluir suas articulações teóricas, afirma que analisar o “pensar design” em termos antropológicos traduz-se em estudar quais as relações que os designers – os “feiticeiros” desta sociedade moderna industrial – estabelecem com esta mesma sociedade em que estão inseridos.

 

A proposta de ANASTASSAKIS, embora não seja novidade em outros países como Inglaterra e Austrália, parte de uma premissa diferente dos outros lugares que pesquisam sobre o tema: entender a relação estabelecida entre designers, por meio de artefatos, com o ambiente ao seu redor. Este estudo prova-se importante para a compreensão da influência dos objetos na consolidação ou transformação de valores de uma sociedade, ajudando a elucidar e explicar outros questionamentos presentes na Antropologia.

 

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Sobre Cadu Silva

Formando em Desenho Industrial - Projeto de Produto, é interessadíssimo em Antropologia Cultural, Estudos sobre Cultura, Identidade Cultural, Filosofia e História. Para dar vazão aos seus estudos sem rumo, ele escreve aqui.

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